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DA OPRESSÃO À LIBERDADE

A jornada de Rafa Castro, artista que transformou dor em fé e música

Por Artur Vieira*

O roteiro parece conhecido: filhos de pastores e líderes evangélicos, ainda crianças, aprendem cedo a conter gestos, calar emoções e sufocar a própria sexualidade para preservar a imagem das famílias que ocupam posições de destaque religioso. Mas o que muitos tratam como um enredo repetido é, na verdade, uma ferida social ainda aberta no Brasil — e que precisa ser contada, nomeada e enfrentada.

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Rafa Castro poderia ter sido apenas mais um desses meninos que atravessam a infância e a adolescência sob o peso da repressão religiosa. Poderia ter seguido calado, sufocado, invisível. Mas o dentista de 37 anos, natural de São Bernardo do Campo (SP), vive hoje o contrário disso: respira alívio, autenticidade e paz após romper com anos de negação e sofrimento silencioso.

“Eu ouvi a voz de Deus me dizer que a graça Dele me basta”

Desde cedo, Rafa aprendeu que havia algo em seu modo de ser que precisava ser vigiado. A mãe, temendo olhares e julgamentos da comunidade, o orientava a “segurar os trejeitos”, a controlar o movimento dos braços, a policiar a postura e as expressões. Na adolescência, aos 15 anos, veio o período mais duro: alternava momentos de aparente normalidade com crises profundas, marcado pela autodepreciação e pela crença devastadora de que era “uma abominação destinada ao inferno”.

A depreciação que carregava se intensificou quando buscou ajuda psicológica. De uma psicóloga cristã, ouviu que precisaria escolher “entre ir para o céu ou ser feliz aqui na Terra” — frase que, misturando fé e pseudociência, feriu ainda mais um jovem já fragilizado pela batalha interna por aceitação.

Em 2012, uma oportunidade o lançou aos holofotes: sua participação no programa Raul Gil

Histórias como essa, que tantas vezes ganham as páginas dos jornais apenas quando terminam em tragédia, foram sendo reescritas por Rafa à medida que ele encontrava fôlego para resistir. E sua trajetória, que poderia ter sido mais uma entre tantas tragédias marcadas pela violência do fundamentalismo contra pessoas LGBT+, tornou-se exemplo de superação, coragem e reconstrução.

Cantor desde os quatro anos, regente de coral e dono de um timbre afinadíssimo, Rafa sempre carregou a música como parte essencial de si. Em 2012, uma oportunidade o lançou aos holofotes: sua participação no programa Raul Gil lhe abriu portas no cenário gospel e o levou a viajar pelo país, apresentando-se em igrejas, conferências e eventos. No auge da visibilidade, porém, decidiu cancelar toda a agenda de um ano. A luta interna que travava contra sua sexualidade o consumia, e seguir fingindo já não era mais possível.

Ressignificação e Coragem
A virada definitiva veio em 2018, quando, em meio ao desespero, Rafa conta ter se deparado com um momento de revelação íntima: “Eu ouvi a voz de Deus me dizer que a graça Dele me basta”. A frase — que hoje também intitula seu álbum — marcou o início de uma jornada de ressignificação e aceitação.
Atualmente membro da Igreja Betesda, liderada pelo pastor Ricardo Gondim, Rafa vive um novo capítulo. Olhos brilhando, postura serena e projetos a todo vapor; ele celebra o privilégio de viver sua fé sem abrir mão de quem é. Seu recente álbum, “Tua Graça Me Basta”, já rendeu clipes para algumas das dez faixas, lançados de forma consecutiva, além de um DVD ao vivo previsto para fevereiro.

Rafa Castro poderia ter sido apenas mais um desses meninos que atravessam a infância e a adolescência sob o peso da repressão religiosa

E é justamente nesse reencontro consigo mesmo que Rafa Castro se torna mais do que um artista: ele se transforma em símbolo de resistência dentro desse sistema opressor evangélico fundamentalista. Sua história ecoa como um convite — e um alento — para que outras pessoas LGBTQIA+ compreendam que não precisam permanecer aprisionadas em sistemas religiosos que lhes negam dignidade e existência.

Hoje, Rafa é prova viva de que é possível reconstruir a espiritualidade sem abrir mão da identidade; de que a fé não precisa ser sinônimo de medo; e de que viver plenamente pode, sim, ser um ato de libertação. Seu caminho, antes marcado por silêncio e dor, abre agora trilhas para que muitos outros possam caminhar com coragem rumo à sua própria verdade, assim como ecoa sonoras suas canções.

*Artur Vieira é um cristão, gay e jornalista que trabalha com o público LGBT desde 2013 na internet com o perfil @devoltaaoreino

Redação

Redação Ezatamentchy

1 Comment
  1. Rafa Castro

    11/12/2025 19:10

    Uauuuu que matéria incrível !!! Gratidão por traduzir minha história e ser esse portal de benção e esperança para nossa comunidade.

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