Dia Nacional da Visibilidade Trans: campanha destaca nova geração que herda direitos, memória e responsabilidade histórica

No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, o debate sobre existência trans no Brasil ganha uma nova abordagem. Mais do que reafirmar a presença de travestis e pessoas trans na sociedade, a campanha lançada pelo programa Vozes do Orgulho, em parceria com a NATRAPE (Nova Associação de Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco) e o Movimento LGBT Leões do Norte, propõe um deslocamento de narrativa: iluminar o legado construído por gerações anteriores e a responsabilidade histórica herdada por quem chega agora.

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A campanha tem como protagonista Dercy Fortunato, jovem trans com pouco mais de um ano de transição. Artista drag, trabalhadora CLT como atendente de telemarketing e em processo de aproximação com o movimento trans organizado, Dercy simboliza uma geração que inicia sua trajetória em um país ainda profundamente marcado pela transfobia e pela violência, mas que também carrega conquistas inexistentes há duas ou três décadas.

A proposta central da campanha parte de uma premissa clara: a nova geração de travestis e pessoas trans só encontra um “mundo possível” porque outras chegaram antes. Foram as veteranas — muitas delas expulsas de casa, empurradas para a prostituição, criminalizadas, perseguidas pelo Estado e invisibilizadas pela sociedade — que abriram caminhos para o acesso a direitos básicos, reconhecimento jurídico, políticas públicas, trabalho formal e presença nos espaços institucionais.

A campanha tem como protagonista Dercy Fortunato

“Esse cenário não é fruto do acaso. É herança política, construída com dor, resistência e organização coletiva”, destaca o publicitário e ativista das causas LGBT+, Marcone Felix, um dos idealizadores da campanha. Segundo ele, ao escolher uma jovem em início de transição como rosto da ação, a iniciativa estabelece um diálogo direto entre gerações. “É uma forma de honrar quem construiu e, ao mesmo tempo, alertar quem chega. Avançamos, mas o risco do retrocesso é permanente”, afirma.

Apesar dos avanços, o Brasil segue figurando entre os países que mais matam pessoas trans no mundo. A realidade da população trans ainda é atravessada por desigualdades estruturais, exclusão social e violências cotidianas. Por isso, a campanha evita romantizar o presente ou idealizar o futuro.

“Esse cenário não é fruto do acaso. É herança política”

O objetivo é convocar consciência, memória e compromisso coletivo. A nova geração é mais informada, mais conectada e encontra mais possibilidades, mas também precisa compreender que direitos só se mantêm quando são defendidos continuamente. Cada corpo trans que existe hoje carrega, mesmo sem saber, a história de muitas outras que ficaram pelo caminho — e a responsabilidade de garantir que essa história não seja apagada.