Para Valéria, o sucesso da montagem está ligado a uma combinação de fatores que se refletem no palco. “Tem sido incrível, primeiro porque a peça deu um sucesso, né, e aí sucesso é devido a esse elenco coeso e essa direção fantástica e brilhante. Mas acredito muito na força desse texto clássico mesmo. Acredito nessa força desse texto clássico que ultrapassou gerações e anos depois e tá aqui há 48 anos depois, quase 50 anos depois, atualíssimo”, afirma. Segundo ela, participar dessa nova leitura do musical é também perceber como temas discutidos na obra continuam ressoando com intensidade na sociedade atual. “Então acho que além de estar sendo uma experiência única de poder revisitar esse texto clássico, está sendo uma fagulha, uma chama de trazer atenção para temas que foram ditos lá há 48 anos atrás, que estão sendo repetidos aqui da mesma maneira e com a mesma intensidade.”
No espetáculo, a atriz interpreta Geni a partir de uma construção profundamente ligada à sua trajetória pessoal e espiritual. Valéria ressalta que a montagem reforça elementos da cultura e da religiosidade brasileira, algo que dialoga diretamente com a sua experiência de vida. “Eu acredito que dialogam diretamente com a minha personagem, com a minha persona, com a minha pessoa também, já que eu sou adepta às religiões de matriz africana e eu acredito quando a gente fala sobre esses míticos, sobre essas figuras que habitam a rua, a gente fala diretamente com a religião.”
Para ela, esse aspecto amplia o sentido da obra e aproxima o público da essência do musical. “E eu acho que também o que eu penso que fica mais marcado e mais evidenciado nessa montagem que toca nesse sistema da religião é realmente a força de um povo brasileiro, né? A gente tá falando sobre brasilidade na maneira mais pura da palavra brasilidade.”
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Essa conexão aparece desde o início da encenação, que incorpora elementos simbólicos e espirituais como parte da narrativa. “A peça é a abertura com Exu, essa criatura que abre caminhos, essa figura que abre caminhos. Então acho que tem um diálogo muito direto, muito reto com relação a isso, e com a minha pessoa também, diretamente”, explica. Para a atriz, essa abordagem fortalece a identidade cultural da montagem e amplia o entendimento da história para além do enredo, destacando a presença de tradições populares e religiosas como parte da dramaturgia.
Na construção da personagem, Valéria aposta em uma atuação emocional e verdadeira, buscando transmitir ao público a dimensão humana de Geni. “Eu acho que da minha atuação as pessoas, espero que as pessoas gostem. Ela é muito emotiva, muito real e muito verdadeira nas coisas que faz.” A atriz acredita que a experiência do espetáculo também passa por um gesto de celebração e reconhecimento dentro do próprio palco.
Acredito nessa força desse texto clássico que ultrapassou gerações.
Segundo ela, a presença de artistas trans na encenação reforça a importância de revisitar o clássico sob novas perspectivas. “Eu acho que as pessoas devem levar dessa montagem e da nossa participação em especial o celebrar esses dois corpos trans dissidentes.” Valéria também destaca a relação entre sua interpretação e o reconhecimento da personagem dentro da história. “Eu fazendo a Geni e celebrando essa coroação, dando a Geni o que é de Geni, e celebrando ela de maneira tão digna e tão bonita.”
A leitura que a atriz faz da trajetória da personagem também atravessa temas como reciprocidade, sentimentos e relações humanas. Para ela, o público pode sair do espetáculo refletindo sobre o impacto das atitudes individuais. “Eu quero que as pessoas levem desse espetáculo a leveza da importância que estamos ali atuando e que levem seus pensamentos do quanto seus atos, as suas atitudes podem mudar vidas ou podem destruir suas próprias vidas.” Ao comentar a relação entre Geni e Max, Valéria enfatiza a complexidade emocional da história. “Quando a Geni, entre aspas, trai o Max, ela na verdade tá devolvendo aquilo que ele ofereceu para ela, que foi seduzir ela de certa forma e não corresponder esse amor.”

Nesse contexto, a atriz vê a personagem como um símbolo de reflexão sobre a forma como as pessoas se relacionam. “Eu acho que é isso, as pessoas têm que levar para as suas vidas e para as suas existências essa lição maior de que pessoas não são usáveis, elas não são coisas, pessoas são pessoas.” Para ela, a encenação destaca a dimensão humana da narrativa. “Nós pessoas temos sentimento, que pensamos, que sentimos, e que uma hora a gente vai acordar e olha, já estamos num momento em que muitas de nós já acordaram, isso não é uma ameaça, é só reciprocidade.”

Valéria também aponta que a presença de artistas trans em um musical dessa dimensão reflete uma construção que já existia na própria dramaturgia. “Eu penso que a nossa presença física é consequência de uma presença humana e de imaginário de construção de personagem que existe há muito tempo.” Para a atriz, essa representação ajuda a reafirmar a identidade da personagem e sua importância dentro da obra. “Estamos dando a César o que é de César, estamos dando a Marina o que é de Marina, estamos dando a Valéria o que é de Valéria e estamos dando essa vez x o que é dessa vez x.”
Dentro dessa leitura, a atriz acredita que a montagem reafirma o lugar de Geni na história do musical. “Eu penso que essa presença num musical tão importante é a primeira em que a gente está colocando a Geni no devido dela.” Valéria destaca ainda que a discussão sobre a identidade da personagem sempre esteve presente e ganha novos contornos com a encenação atual. “E sempre tem essa polêmica, ah, a Geni era travesti, não era ela. É porque a gente entende sobre travestilidade, transgeneridade, a gente entende que uma pessoa que faz questão absoluta disso é chamada de Geni.”

A partir dessa perspectiva, a atriz vê a personagem como parte de um debate mais amplo sobre sociedade e poder. “Então aí já é um dos maiores argumentos sobre a travestilidade e a transgeneridade da Geni.” Para ela, o espetáculo mostra que essas figuras não podem ser reduzidas a estereótipos. “Então eu acho que a gente tá colocando esses personagens como pessoas, como personas, embora sejam personagens, mas de uma existência que elas existem, que elas sentem necessidades.”
Valéria reforça que essa abordagem busca trazer a personagem para o campo da humanidade, ampliando sua complexidade e presença dentro da narrativa. “Que elas sentem fome, que elas sentem sede, que elas sentem vontades, desejos e se apaixonam, enfim. E que elas não são somente sexo ou uma figura de fetiche ou exótica.” Ao final, a atriz resume o sentido dessa construção em cena: “Acho que a importância é realmente trazer pro campo da humanidade, de ser humano, de ser, olha que palavra bonita de ser, e de ser humano.”
ÓPERA DO MALANDRO – MUSICAL
Temporada: até 15 de março de 2026
Horários: sextas às 21h, sábados às 17h e 21h, domingos às 15h e 19h
Local: Teatro Renault
Endereço: Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411 – Bela Vista, São Paulo – SP
Duração: 120 minutos (sem intervalos)
Classificação etária: 14 anos
Redes oficiais: @operadomalandromusical
SETORES/VALORES
PLATEIA VIP: de R$175,00 (meia entrada) a R$350,00 (inteira)
PLATEIA PREMIUM: de R$ 150,00 (meia entrada) a R$300,00 (inteira)
PLATEIA GOLD: de R$ 120,00 (meia entrada) a R$240,00 (inteira)
PLATEIA SILVER: de R$ 110,00 (meia entrada) a R$220,00 (inteira)
CAMAROTE SUPERIOR: de R$ 130,00 (meia entrada) a R$260,00 (inteira)
BALCÃO VIP POPULAR: de R$ 25,00 (meia entrada) a R$50,00 (inteira)
BALCÃO PREMIUM POPULAR: de R$ 25,00 (meia entrada) a R$50,00 (inteira)
BALCÃO ECONOMY POPULAR: de R$ 25,00 (meia entrada) a R$50,00 (inteira)



Valéria Barcellos
27/02/2026 13:53
Obrigada pelo carinho e pelo destaque!
Geni Vive!