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FANTASMAS

O desafio das igrejas evangélicas tradicionais no Brasil com a ascensão das comunidades inclusivas

Por Artur Vieira*

A crescente inclusão de LGBT+ nas igrejas evangélicas e a expansão de templos denominados inclusivos/afirmativos têm desafiado o tradicionalismo das igrejas convencionais no Brasil. Com uma teologia que acolhe os homoafetivos e propõe uma nova leitura da Bíblia — valorizando a diversidade sexual e evitando a demonização—, essas novas congregações têm conquistado uma parcela significativa da comunidade que antes era marginalizada ou forçada a passar por terapias de “reorientação sexual”.

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Esse cenário está se consolidando com a rápida ascensão de igrejas inclusivas, especialmente em um país onde o número de evangélicos tem crescido de forma significativa. Antigamente, aqueles que pertenciam à comunidade LGBT+ precisavam negar sua identidade ou reprimir seus desejos por meio de orações, jejuns e até “exorcismos” para serem aceitos em templos tradicionais. Hoje, essa realidade já mudou, principalmente com a proliferação de igrejas lideradas por homossexuais que mantêm os dogmas cristãos tradicionais, mas com um foco inclusivo.

Acolhimento

A crescente presença de templos inclusivos no Brasil tem assustado as lideranças das igrejas tradicionais e gerado um movimento de reavaliação. De acordo com a jornalista Carla Nunes, que fez um levantamento cadastral dessas denominações, o número de igrejas nesse formato gira em torno de 105 no Brasil. Esse fenômeno tem levado a uma migração significativa de membros, principalmente do público LGBT+, que antes estava ausente ou marginalizado dos espaços religiosos tradicionais. O impacto é notável, com uma diminuição na arrecadação de dízimos e ofertas nas igrejas convencionais, já que o chamado “Pink Money” (termo que se refere ao poder de compra da comunidade LGBT+) tem se transferido para esses novos templos.

Jean Leão, que hoje faz parte da playlist “Gospel LGBTQIAPN+”

Exemplo disso é a Igreja Cidade de Refúgio Church, em São Paulo, uma das maiores igrejas voltadas para a comunidade LGBT+ no Brasil, liderada pelas pastoras lésbicas Lanna Holder e Rosania Rocha. Com mais de 1000 membros em sua sede e 16 filiais pelo país e uma em Lisboa (Portugal), a igreja oferece uma infraestrutura moderna, incluindo um templo de dois andares e equipamentos de som e luz de ponta, atraindo um público sofisticado e crescente.

“A Cidade de Refúgio Church vai na contramão do sistema religioso estabelecido no país, nós somos resistência”, comenta Lanna Holder.

Esse movimento de inclusão também está influenciando outras denominações tradicionais. A Igreja Betesda, por exemplo, que durante anos se manteve firme em sua postura de condenação ao público LGBT+, iniciou há alguns anos um processo de acolhimento de pessoas homoafetivas, liderado pelo pastor heterossexual Ricardo Gondim; que reavaliou e decidiu abraçar LGBT+ em sua igreja capital paulista.

Mudança de Protagonismo

Se antes líderes como Silas Malafaia e Edir Macedo eram conhecidos por suas declarações públicas contra a comunidade LGBT+, hoje suas palavras perdem força diante da crescente aceitação e visibilidade do movimento evangélico inclusivo. O impacto não se limita apenas às igrejas, também tem afetado a música gospel, com a crescente entrada de artistas LGBT+ no cenário musical religioso. Plataformas como Spotify, por exemplo, já possuem playlists dedicadas ao público cristão inclusivo, ampliando o alcance de cantores religiosos independentes, como Jean Leão, um cantor carioca que agora tem a oportunidade de apresentar sua música fora do contexto tradicional.

Jean Leão, que hoje faz parte da playlist “Gospel LGBTQIAPN+”, conta: “Fiquei anos em conflitos e reprimindo meu talento musical; apenas pelo fato de ser gay, era impedido de exercer minha arte dentro da igreja tradicional”.

A Política e a Fé

Paralelamente à mudança nas práticas religiosas, a bancada evangélica mais conservadora tem se mobilizado politicamente para tentar reverter os avanços em direitos conquistados pela comunidade LGBT+. Com seu discurso baseado na defesa da “família tradicional”, muitos parlamentares dessa ala têm atuado ativamente contra projetos que buscam garantir a igualdade de direitos e combater a discriminação. O paradoxo é evidente: muitos líderes religiosos, que deveriam pregar o amor ao próximo, acabam sendo protagonistas de discursos e atitudes que promovem a segregação e a violência contra a comunidade LGBT+.

Por outro lado, lideranças progressistas dentro do meio evangélico têm ganhado espaço, como o pastor Henrique Vieira, deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, e Fillipe Gibran, pastor em Belo Horizonte (MG). Gibran, em particular, tem se destacado ao acolher a LGBT+ em seu púlpito e ao se posicionar contra os discursos homofóbicos, sexistas e machistas de lideranças tradicionais.

“A igreja evangélica brasileira trocou Jesus pelo poder e pelo dinheiro”, afirma Fillipe Gibran.

A crescente visibilidade de vozes progressistas dentro do meio evangélico e o fortalecimento de igrejas inclusivas são indicativos de uma transformação necessária e urgente no cenário religioso brasileiro, onde a luta pela aceitação e pelo respeito à diversidade tem ganhado força, desafiando as velhas estruturas e trazendo à tona um debate cada vez mais relevante sobre fé, identidade e direitos humanos.

Tão relevante e urgente é essa temática que nos últimos cinco anos, 39,6% dos projetos de lei anti-LGBTQIA+ apresentados no Brasil tiveram como foco principal a população trans. As propostas abordam restrições relacionadas ao uso de banheiros, à participação de atletas em competições, o acesso ao processo de transição e discussões sobre a definição de gênero.

Os dados são da Observatória, uma plataforma da Agência Diadorim que acompanha as ações legislativas contrárias aos direitos LGBT+. A pesquisa analisou os projetos de lei apresentados entre janeiro de 2019 e outubro de 2024 nas esferas estadual, na Câmara dos Deputados e no Senado. No total, foram levantadas 1.012 propostas – 575 delas em apoio à população LGBTQIA+ e 437 contrárias aos seus direitos.

*Artur Vieira é cristão, gay e jornalista que trabalha com o público LGBT+ desde 2013 na internet através do perfil @devoltaaoreino

Redação

Redação Ezatamentchy

1 Comments
  1. Elizabeth Cristina Gregorio Oliveira

    06/02/2025 22:47

    Estou feliz que nossa comunidade tem ganhado estes espaços, sabemos que não foi fácil chegar onde chegamos. É necessário coragem e resistência , assim como minhas pastoras sempre falam . Nosso gênero , raça ou etnias não deveriam ser um problema para sociedade, nosso Deus veio por todos . Hoje sou da cidade de refúgio church, mas nasci e fui criada na assembleia e a amo de paixão , pois todos os princípios que aprendi vieram de la. Hoje sendo obreira da cidade de refúgio church Sp eu sou como nasci, e descobri que independente da minha sexualidade o meu Deus me ama. Matheus18:15-30 meu devocional de hoje deixou a seguinte frase em meu coração como um exemplo perfeito de amor, ele dizia assim: AME COMO JESUS AMOU. E aprendí desde então que amo a todos até mim mesma que por alguns anos me senti longe desse amor que me resgatou e me fez ser o que sou e do jeito que sou. Sua imagem e semelhança

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