“Marcello Mio”, de Christophe Honoré, homenageia a família de uma de suas atrizes fetiche, Chiara Mastroianni

Por Eduardo de Assumpção*

“Marcello Mio” (França/Itália, 2024) Oscilando entre a fantasia e o drama familiar, “Marcello Mio”, de Christophe Honoré, homenageia a família de uma de suas atrizes fetiche, Chiara Mastroianni. O filme acompanha ela mesma enquanto embarca em um caminho não convencional de autodescoberta.

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Chiara, filha dos atores icônicos Catherine Deneuve e do falecido Marcello Mastroianni, há muito tempo viu sua própria carreira ofuscada por seus ilustres pais. Frustrada, após o conselho de uma diretora para “interpretar mais como Mastroianni”, Chiara passa por uma transformação surpreendente, vestindo o estilo característico de seu pai, dos filmes clássicos de Fellini.

Enquanto outras estrelas como Catherine Deneuve, Nicole Garcia, Melvin Poupad e Fabrice Luchini olham perplexos, Chiara abraça totalmente o papel de Marcello, falando apenas italiano e se recusando a responder em seu próprio nome. A odisseia imaginativa de Honoré confunde a realidade com a fantasia ao seguir o caminho particular de uma filha de se conectar com seu falecido pai.

A transformação de Chiara é um choque, enquanto reflete a relação com sua mãe, Catherine Deneuve. Poucos estão mais familiarizados com as demandas de celebridade do que Catherine, mas até mesmo sua calma habitual é abalada. À medida que Chiara se aprofunda na personalidade de seu pai, DeNeuve fica dividida entre honrar a conciliação de uma filha com seu passado e temer por sua saúde mental no presente.

Subtextos de luto, desejo e gênero encontram espaço ao lado da comédia através do toque habilidoso de Honoré. Chiara Mastroianni oferece uma performance de tour de force que é por vezes charmosa, misteriosa e profundamente comovente. No coração do filme está uma mulher lutando com sua identidade.

O filme começa com Chiara caracterizada como Anitta Ekberg de La dolce vita, recriando a famosa cena da Fontana di Trevi para uma sessão de fotos. No centenário do ator, Honoré também recria cenas icônicas, como a conversa entre os personagens de Mastroianni e Claudia Cardinale no final de 8 ½.

*Eduardo de Assumpção é jornalista e responsável pelo blog cinematografiaqueer.blogspot.com
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Twitter: @eduardoirib