Dani é nossa nova colaboradora e chega falando sobre ser orgulhosa de si

Por Dani Barroso*

Orgulho é um velho conhecido meu. Gente boa! Uma pessoa que desde que entrou na minha vida, nunca me deixou desamparada. Tudo bem, algumas vezes a gente até perdeu contato, mas eu assumo toda a responsabilidade. Nós nos conhecemos quando eu ainda era jovem. Na época, eu era ingênua de tudo. Era até bonito de ver, sabe? Porém, nada prático quando se está sob a mira da Sociedade. Eu lembro exatamente o dia que nos encontramos. Eu estava na praia, sentada na areia, namorando o horizonte. Pensando na vida.

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Foi quando ele sentou ao meu lado e começou a puxar assunto. Eu senti um conforto com ele ao meu lado que não sei explicar. Conversamos por bastante tempo. Ele falava de uma forma muito acolhedora. Disse que tudo bem eu gostar de meninos. Que ele conhecia outras pessoas como eu e que era amigo de muitas delas. Naquele dia, nasceu uma linda e duradoura amizade. Ele estava lá me apoiando quando eu, apavorada, dei meu primeiro beijo.

Foi meu confidente, quando eu dizia detalhes do dia em que eu perdi minha virgindade. Deu bons conselhos quando eu conheci o meu primeiro amor e comecei a namorar. Mas como nem tudo são flores, nossa relação deu uma boa estremecida quando precisei morar sozinha, o que não foi uma escolha minha, se é que me entende. Nossas brigas eram homéricas! As crises de choro eram frequentes e cheguei a pensar em desistir de tudo.

 

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Toda a minha família me virou as costas por andar junto a ele. Mas foi quando eu decidi que tudo estava acabado, que ele segurou na minha mão, trêmula, e me ergueu. E, assim, os anos passaram e sempre pude contar sua amizade. Eu tenho plena consciência de que nem sempre eu fui uma boa amiga. Cheguei a trair nossa amizade com outros. O Impostor e a Insegurança que o digam! Mas no fim, ele sempre me acolhia.

O Orgulho é um cara muito gente boa. Ele geralmente é gentil e acolhedor. Mas quando ele quer ser ouvido, faz até passeata! Até mesmo porque tudo tem limite, né. Se você quiser ver ele perdendo as estribeiras é só falar do seu rival, o Privilégio. Não que ser amigo do Privilégio seja algo ruim. Quem não gostaria de ser da nobre família dos privilegiados. Mas… sabe o que é… os santos dos dois não batem. Orgulho sempre se retira quando o Privilégio está presente. Eles são incompatíveis. Outro dia um cara branco, hétero e cis teve a audácia de dizer que era brother do Orgulho.

Orgulho ficou p da vida. Onde já se viu, uma pessoa que nunca teve uma prosa com ele dizer que era seu amigo. Orgulho sempre preferiu ser amigo dos desajustados e dos oprimidos. Ele diz que a amizade nasce quando há a necessidade. E a necessidade vem da falta de privilégios. Vem quando todos dizem que não deveríamos existir. E mesmo assim levantamos a cabeça com orgulho. Anos depois, durante a pandemia, ele me ensinou umas coisas novas e foi muito bom! Eu aprendi com ele que tudo bem eu não concordar com o gênero que fui atribuída ao nascer.

O Orgulho é um cara muito gente boa. Ele geralmente é gentil e acolhedor.

E que eu também não precisava escolher entre as duas opções que a Sociedade tentava me vender. Aquela mercenária insensível! Recentemente, eu estava passando por um momento difícil. Não conseguia focar em nada e não tinha nem energia para lavar uma louça. Então, ele me incentivou a procurar por ajuda profissional. Foi quando eu descobri, por meio de uma avaliação, que eu tinha uma forma única de pensar. E ele estava lá para me apoiar mais uma vez.

Ele pegou na minha mão e me explicou que todas aquelas vezes que eu me senti fracassada, era por que eu não tinha o suporte de que eu realmente precisava. Que viver com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade não era fácil. Mas que se eu tratasse direitinho, as coisas iriam melhorar. E assim foi. Nessa época, eu estava tendo um affair… affair, não! Uma recaída com o traste do meu ex, Impostor. Foi quando Orgulho me deu um ultimato. Ou ele ou eu!; Ele me gritava coisas como: Você não queria uma prova que era melhor que ele, tá aí! Você tem QI alto o suficiente pra se livrar desse cretino! Só precisa acreditar mais em você!!!

Mas eu culpo a Sociedade, sabe. Por ter entrado nessa relação tóxica. Ela sempre me educou para esconder meus talentos, dizia que era coisa de etiqueta. Sempre fez questão que eu usasse aqueles espartilhos apertadérrimos, só para poder usar a roupa que ela achava que ficava bem em mim. Eu acabei achando que estava sempre errada. Que não tinha roupa para mim. Criei disforia da minha pessoa. Foi libertador quando o Orgulho me incentivou a abraçar o que me fazia sentir estranha.

Foi quando doei as roupas apertadas a quem servisse e passei a me vestir de forma mais autêntica. isso me fez tão bem que eu decidi investigar algumas coisas que eu já desconfiava. Fui ao médico, fiz alguns exames e recebi o diagnóstico de Fibromialgia. Posso não ter muito orgulho da forma como eu desenvolvi essa condição. Até porque foi resultado de muito abuso psicológico somado àqueles espartilhos medonhos. Mas o Orgulho sempre me disse que temos que respirar fundo e levantar a cabeça. No mês seguinte, outra suspeita que estava investigando se confirmou.

Você tem QI alto o suficiente pra se livrar desse cretino! Só precisa acreditar mais em você!!

Eu descobri que a vida toda eu fui, e sou, uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Essa notícia eu recebi com muita emoção! Não era apenas um diagnóstico. Tratava-se de uma validação às dificuldades que tive pela vida. Eu não estava quebrada, eu só funcionava diferente. Ai, eu tô muito orgulhosa, meu bem.

Eu tenho orgulho por ser uma pessoa queer não-binária.
Eu tenho orgulho de fazer parte das letrinhas do LGBTQIAPN+.
Eu tenho orgulho das minhas cicatrizes.
Eu tenho orgulho de ser uma pessoa com deficiência oculta.
Eu tenho orgulho de ser neurodivergente, com TDAH e superdotação.
Eu tenho orgulho de ser uma pessoa autista.

Nossa, quanta coisa! Minha mãe vivia dizendo que eu não era todo mundo. Mas não era pra tanto,
né!? Sobretudo, vou ao lado meu velho amigo do peito, o Orgulho, enquanto desbravo um mundo que não fora feito para mim. E espero que essa linda amizade também faça sentido para você.

*Dani tem 40 anos, é queer e autista. Ela é uma eterna otimista que ama tanto os livros, que decidiu trabalhar com isso. Escrever, para ela, é uma forma de sobrevivência.
https://substack.com/@danttine