Grupo brasiliense rompe barreiras em um dos gêneros mais masculinos e transforma representatividade em ritmo, talento e resistência

Por Artur Vieira*

No mês em que se celebram as conquistas e a força feminina, histórias de protagonismo ganham ainda mais relevância. É nesse contexto que se destaca o grupo de pagode Elas Que Toquem, criado em agosto de 2020, em meio às incertezas da pandemia de Covid-19.

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A estreia foi em uma live no canal do músico Leandro Brito, marcando oficialmente o início de um projeto que nasceu de forma despretensiosa. Tudo começou em um churrasco entre amigas: roda de samba improvisada, instrumentos na mão, risadas e muito pagode. Em meio à descontração, surgiu uma reflexão que mudaria o rumo daquele encontro: “Não tem mulher no pagode ainda”.

Embora o cenário musical brasileiro sempre tenha contado com grandes cantoras e com grupos femininos de samba, o pagode — especialmente no formato tradicional consagrado por grupos como Soweto, Exaltasamba e Turma do Pagode — permanecia predominantemente masculino. Havia vozes femininas de destaque, como Ludmilla, que também interpreta pagode em seus shows, mas cuja trajetória é fortemente associada ao funk. Faltava, segundo as integrantes, uma referência atual de grupo exclusivamente feminino dentro do gênero.

altava, segundo as integrantes, uma referência atual de grupo exclusivamente feminino dentro do gênero

Do nome à rotina musical
Foi desse incômodo que nasceu o Elas Que Toquem. O nome faz alusão bem-humorada ao ditado popular “elas que lutem”, transformando a expressão em um grito de representatividade e atitude. Ao anunciar “Elas Que Toquem”, o próprio nome já comunica a proposta: mulheres no palco, nos instrumentos e no comando da roda de pagode.

Naturais de Brasília, as cinco integrantes — Maísa Lameira, Bruna Tassy, Any Lopes, Juliane Costa e Vanessa Lima — carregam na trajetória desafios que vão além da música. Segundo Maísa, o primeiro obstáculo enfrentado é o preconceito: a necessidade constante de provar que mulheres têm a mesma qualidade musical que homens em um ambiente historicamente dominado por eles.

Além disso, há barreiras no próprio mercado. Em negociações com bares e espaços de eventos, ainda é comum a percepção equivocada de que um grupo feminino atrairá apenas um tipo específico de público. “A música não tem sexo, não tem gênero e nem cor. A música é para todos”, ressalta a integrante.

Tudo começou em um churrasco entre amigas: roda de samba improvisada, instrumentos na mão, risadas e muito pagode

Desafios
A consciência de que precisam demonstrar competência “três vezes mais” faz parte da rotina do grupo. Por isso, desde a formação, as artistas investem em capacitação constante, ensaios intensivos e profissionalização. A missão é clara: inovar, romper barreiras e ocupar espaço no mercado com identidade própria, qualidade técnica e alegria — sem dever nada a ninguém.

Cinco vozes, cinco histórias e um propósito em comum. O Elas Que Toquem segue ampliando horizontes, conquistando palcos cada vez maiores e reafirmando, a cada apresentação, que o pagode também é lugar de mulher. Você pode acompanhar o trabalho do grupo no instagram @elasquetoquem

*Artur Vieira é um cristão, gay e jornalista que trabalha com o público LGBT+ desde 2013 na internet com o perfil @devoltaaoreino