Uma reflexão urgente sobre gênero, direitos e crescente violência contra mulheres país afora.
*Por Artur Vieira
Março é frequentemente lembrado pelo Dia Internacional da Mulher, 8 de março. No entanto, o mês vai muito além da data simbólica: ele convida à reflexão sobre a luta histórica por direitos igualitários e, sobretudo, sobre o combate à violência contra mulheres — um problema que, diante dos números crescentes, tem sido comparado a uma verdadeira pandemia social. Movido por esse cenário, busquei ouvir o influenciador e pesquisador reconhecido por suas análises sobre cultura, política e sociedade, com foco em semiótica e sociologia mais conhecido nas redes sócias como Senhorita Bira.
Leia também:
Drag queen brasileira Fontana é confirmada em “RuPaul’s Drag Race UK vs The World”
A jornada de Rafa Castro, artista que transformou dor em fé e música
Em uma conversa de aproximadamente quarenta minutos — que ultrapassou o formato tradicional de entrevista e se transformou em uma verdadeira aula sobre gênero, construção identitária e os efeitos da masculinidade tóxica —, discutimos como o machismo é socialmente construído desde a infância e perpetuado ao longo das gerações.
Para Bira, a ideia do que significa “ser homem” não é fixa, tampouco universal. Ela varia conforme o tempo e o contexto histórico. Ele relembra, por exemplo, que em determinados períodos da história — como na França de séculos passados, a aristocracia europeia— os homens considerados mais desejados e símbolo de masculinidade usavam perucas, meias-calças e saltos altos. A observação serve para questionar uma frase ainda comum: “homem de verdade era o do meu tempo”. Afinal, de qual tempo estamos falando?
Segundo o pesquisador, tanto a masculinidade quanto a feminilidade são construções sociais que se transformam ao longo do tempo. Ele aponta que, na Idade Moderna, consolidou-se a ideia de separação entre razão e emoção — uma divisão que ainda hoje influencia a forma como entendemos o comportamento humano.
Quem está destruindo a família é quem mata a família.
“Criou-se a noção de que existe um campo da razão e outro da emoção, como se fossem opostos. Mas isso não é verdade. Nós não tomamos decisões puramente racionais o tempo todo. Somos, essencialmente, seres emocionais.” Ao abordar a questão do chamado “privilégio masculino” no cotidiano, muitas vezes percebido de forma invisível, Bira propõe uma reflexão que desafia o senso comum. Para ele, o debate precisa ser reformulado.
“Eu vou te decepcionar, mas não acredito que haja privilégio na sociedade como costumamos dizer. Quando falamos de ‘privilégios’, precisamos questionar: do que estamos falando exatamente? Não ser morto pela polícia, não ser discriminado ao entrar em uma loja, não ter oportunidades negadas — isso não é privilégio. São direitos básicos.”
Ele amplia o argumento ao tratar das diferenças sociais entre grupos: “Homens não vivem com o medo constante de serem estuprados, não recebem menos por serem homens, não têm o mesmo receio de andar sozinhos à noite. Mas isso é privilégios? Não. Isso é direitos que deveriam ser garantidos a todos. O problema é que esses direitos são negados a determinados grupos.”

Para o pesquisador, o uso indiscriminado do termo “privilégio” pode gerar divisões e disputas improdutivas. Em vez disso, ele defende a necessidade de enfatizar a desigualdade no acesso a direitos fundamentais, como segurança, renda, autonomia sobre o próprio corpo e dignidade.
Ao final da conversa, Bira explica por que aceitou participar da entrevista. Como homem gay, ele se reconhece parte de uma estrutura social que, direta ou indiretamente, contribui para a violência contra mulheres. Para ele, é fundamental que homens — independentemente de sua orientação sexual — assumam a responsabilidade de discutir e enfrentar esse problema.
Ele reforça que a violência de gênero não é um fenômeno isolado, mas uma realidade cotidiana no país, sustentada por comportamentos e discursos reproduzidos em diferentes espaços sociais. “Quem está destruindo a família é quem mata a família. E quem mata a família, hoje; são os homens — não o contrário.”
A fala é contundente e aponta para um caminho inevitável: o enfrentamento da violência contra mulheres passa, necessariamente, pelo engajamento masculino na revisão de comportamentos, valores e estruturas que sustentam essa realidade.
*Artur Vieira é um cristão, gay e jornalista que trabalha com o público LGBT desde 2013 na internet com o perfil @devoltaaoreino


