Uma música violenta e doce

Por Dani Chibani*

Quem vai me amar assim? [Who’s gon’ love me like this?]  Esse verso – que faz parte da canção “The man of year” – poderia facilmente fazer parte dos pensamentos disfuncionais de uma pessoa lidando com sua identidade de gênero.

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E não é à toa. Lorde contou à revista Rolling Stone que, enquanto escrevia a canção, tentou visualizar uma versão de si mesma que representasse seu gênero. Ela se imaginou usando jeans masculino e com fita adesiva no peito. “Fui até o armário, peguei a fita e fiz isso em mim mesma. Tenho essa foto olhando para mim mesma. Eu estava loira. O que vi me assustou. Eu não entendi. Mas senti algo explodindo de dentro de mim. Foi loucura. Era algo pontiagudo. Havia uma violência nisso.”

Essa faixa é particularmente especial para mim, pois foi lançada em uma fase estranha da minha vida [You met me at a really strange time in my life] em que estava renascendo depois da morte do meu próprio eu [Like new from my recent ego death].

Muito se fala do renascimento da pessoa trans. Porém, antes disso, há o luto por quem fomos… por quem tentamos, a todo custo, gostar de ser. Não dá pra simplesmente passar a limpo nossa vida. No meio de toda a disforia de gênero, havia verdade. Mesmo que sob um olhar atrás da máscara.

E também tem as relações. Quando mudamos o curso de um rio, o ecossistema em volta muda junto. Com isso, algumas relações se transformam, para bem ou para o mal. Há muitas despedidas se disfarçando da transfobia. E há pessoas incríveis que nos encontram.

Hoje, sou muito grata que exista artistas como Billy Porter, Demi Lovato, Sam Smith, Bárbara Paz, Juvi e tantos outros falando tão abertamente sobre a não-binariedade. A própria Lorde declarou em uma entrevista à Rolling Stones que brincou quando Chappell Roan perguntou seus pronomes: “‘eu sou mulher, exceto nos dias que eu sou homem.’ Sei que essa não é uma resposta muito satisfatória, mas há uma parte de mim que é realmente resistente a rótulos”.

Na minha infância e adolescência havia poucos artistas que desafiavam o gênero, como os incríveis David Bowie e Ney Matogrosso. Mas eles eram vistos (na minha bolha, ao menos) como excêntricos ou até exóticos. Foi muito difícil de entender que meu próprio gênero desafiava a binariedade.

Eu costumo dizer que, desde nossa infância, nos é ensinado como é ser homem e como é ser mulher. O binário está implícito na sociedade e em todo lugar. Sinto que, se você não se encaixa nesses padrões, você que se vire para encontrar suas referências.

Hoje, com a ajuda da arte dos artistas que citei, tenho me tornado uma pessoa mais parecida comigo [Someone more like myself]. Convivendo em harmonia com meu feminino e masculino e fluindo entre eles.

Vamos aplaudir a mulher do ano! [Let’s hear it for the man of the year]

*Dani tem 40 anos, é queer e autista. Ela é uma eterna otimista que ama tanto os livros, que decidiu trabalhar com isso. Escrever, para ela, é uma forma de sobrevivência. https://linktr.ee/dantinys